Castelo, Centro do Rio – A joia art déco sobre o morro desmontado

O Castelo é uma localidade no Centro do Rio, assim como a Cinelândia, a Lapa, o Passeio. Só que ao contrário desses outros, não existe mais uma referência física a essa localidade, permanecendo na memória coletiva o que foi fruto de uma grande reforma urbana. Outros casos ocorrem no Rio, como a Praça XI e o Mangue.

Durante a administraçao de Carlos Sampaio, concretizou-se um ideal antigo de reforma urbana do Distrito Federal: o desmonte do Morro do Castelo.

Tal morro tratava-se de uma das colinas históricas, a partir de onde a cidade havia sido colonizada durante o século XVI — enchentes sempre foram comuns no Rio devido a clima e topografia, o que fazia dos morros locais perfeitos para estabelecimento de habitações e órgãos públicos.

Desde a época de D. João VI, no entanto, já se cogitava demolir o berço da cidade, por justificativas que iam do higienismo a teorias como a que dizia que a circulação do ar era primordial para a erradicação de doenças (daí a suposta necessidade dos bulevares). E o Morro do Castelo era considerado uma barreira natural aos ventos.


(ABREU, Maurício de A. "Evolução Urbana do Rio de Janeiro")

Além disso, com os movimentos de expansão da cidade, o morro foi cada vez mais perdendo status, e sendo ocupado por cortiços e habitações e negócios populares diversos. Por isso, o plano de Pereira Passos para aquele obstáculo, não realizado em seu tempo, cumpriu seu fim para a realização das comemorações do centenário da Independência, e a exposição internacional correspondente.


(ABREU, Maurício de A. "Evolução Urbana do Rio de Janeiro")

Foram construídos pavilhões, alguns dos quais ainda podem ser vistos (Museu da Imagem e do Som, Academia Brasileira de Letras e parte do Museu Histórico Nacional). Posteriormente, o Plano Agache criava uma solução monumental para os aterros resultantes do desmonte, o que foi realizado em parte. Os antigos bairros do Castelo e da Misericórdia, extintos sob o morro, dariam lugar a uma esplanada que deveria ser o centro de negócios do Distrito Federal.

Getúlio Vargas deu prosseguimento à ocupação da chamada Esplanada do Castelo, com o Ministério da Fazenda, o Ministério do Trabalho, monumentais, e o Ministério da Educação e Saúde, próximo a eles.

A questão toda é: o desmonte foi lamentável, e hoje seria criminoso. Apesar da decadência conjuntural, o patrimônio histórico ali contido era incalculável (e isso sem nem se falar do lendário tesouro do jesuítas, supostamente enterrado sob o morro), e a cidade perdeu seu coração, sua origem.

Entretanto, daquela ruína arrasadora surgiu uma das partes mais fascinantes do Rio de Janeiro, um dos meus lugares preferidos aqui. Talvez junto a Copacabana e Flamengo, o Castelo contenha a maior parte do art déco da cidade. Um art déco tropical, com venezianas Copacabana e linhas suaves.

Além disso, há ainda excelentes exemplares do início do Modernismo, e (corrijam-me os arquitetos) alguns exemplares híbridos, entre as duas escolas — prédios escalonados com portões de ferro, mas também pilotis. Além, claro, dos coloniais.

Enfim, se você chegou até aqui, eu fico lisonjeado. Caso queira saber mais do Morro do Castelo, sugiro o seguinte link, que emula um roteiro turístico pelo Rio Antigo: http://www.hcgallery.com.br/cidade20.htm

Enfim, o paradoxo é: arrasaram o Castelo. Mas o resultado é fantástico.

Não segui exatamente as especificações do antigo Morro ou da Esplanada do Castelo (atual Avenida Presidente Antônio Carlos), mas um conjunto delimitado pela Rua São José, Rua México, Avenida Beira-Mar, Avenida General Justo e Perimetral.

Espero que gostem, sobretudo aqueles que ainda não conhecem o Castelo.