Reportagem: O que vem aí para ajudar o trânsito de SP

Fonte: http://revistaautoesporte.globo.com/…+TRANSITO.html

O que vem aí para ajudar o trânsito

Falamos com autoridades e apuramos o que está sendo feito para São Paulo não parar

André Mendes

Congestionamentos: sinônimo de desperdício, estresse e baixa qualidade de vida
O trânsito é um assunto corriqueiro na vida de quem circula pela maior cidade da América Latina e por diversas outras em todo o país. Tanto é verdade que músicos brasileiros vêm revelando seus “talentos” ao recitarem canções relacionadas ao tema. Na música Trânsito Engarrafado, os integrantes do grupo Mastruz Com Leite protestam contra os perigos nos congestionamentos. Letra semelhante ao hit Caso Comum de Trânsito, cantado por Belchior. Já a dupla sertaneja Bruno e Marrone e os pagodeiros do Swing & Simpatia preferem exalar paixão nos “sucessos” Trânsito Parado e Trânsito do Amor.

Correlações à parte, os números da metrópole assustam. De acordo com o Detran-SP (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo), a capital totalizou 6.705.024 veículos (somando motos, automóveis, ônibus, caminhões, reboques, entre outros) em 2009. No estado foram 20.143.576.

Como a contagem estimada da população realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geometria e Estatísticas) em julho de 2009 apontou que a cidade possui 11.037.593 habitantes, a matemática representa que para cada duas pessoas existe um carro.


São Paulo já tem mais de 6,7 milhões de veículos, quase um para cada dois habitantes
A frota total emplacada na cidade no ano passado foi de 335.443 automóveis, média de 27.953 novas unidades por mês. Com quase mil novos carros sendo emplacados por dia, os engarrafamentos se tornam inevitáveis. Estatísticas do Detran-SP informam que o maior registro de trânsito na história de São Paulo aconteceu às 19h do dia 10 de junho de 2009. Naquela véspera de feriado prolongado de Corpus Christi, com chuva e diversos acidentes, a capital computou 293 quilômetros de congestionamento.

Segundo o consultor Cyro Vidal, conselheiro e presidente da Comissão de Assuntos e Estudos sobre o Direito de Trânsito da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), a cidade tinha 15 mil quilômetros de vias disponíveis para circulação veicular em 1970. Na época, eram 900 mil veículos na metrópole. Quarenta anos depois a extensão passou para 17 mil km. Ou seja, enquanto as vias aumentaram apenas 13%, a frota cresceu quase 900%.

“A cidade tem que ser cicatrizada para abertura de novas vias. São Paulo precisa ter a mesma mentalidade de Nova Iorque (EUA), que desapropriou locais para aumentar suas vias e desafogar o trânsito”, opina Vidal. “A inoperância do poder público municipal não permite isso. É preciso ter coragem cívica e vontade política para resolver este caos”, esbraveja.

Aplicação de medidas diminui índices

Medidas implantadas em junho de 2008 como a Zona de Máxima Restrição de Circulação de Caminhões (ZMRC), inclusão dos caminhões no rodízio municipal e restrição aos fretados ajudaram a desafogar o tráfego paulistano. Números da Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo apontam que houve redução da média de lentidão no último ano. Em 2007, a média era de 109 km, subiu para 115,5 km em 2008 e caiu para 108,5 km no ano passado.

A Secretaria informa que também foi reduzido em 28% o volume total de caminhões em circulação nos horários de pico e 62% na área da ZMRC. Além disso, houve 11% de queda nas ocorrências: a média que em 2008 era de 108 ocorrências/dia envolvendo caminhões foi diminuída para 97,5 por dia no ano passado.


Reforma na Marginal Tietê: obras pretendem dar um alívio aos constantes congestionamentos

“Acho que o trânsito de São Paulo é difícil, mas não podemos dizer que é um caos. Fazemos o possível diante de uma frota que cresce cada vez mais. Temos medidas de curto, médio e longo prazo para controlar isto”, afirma Alexandre de Moraes, secretário Municipal de Transportes de São Paulo.

De acordo ele, a Secretaria vem trabalhando para retirar vagas para carros nas ruas e nas chamadas Zona Azul. “Já que não podemos criar vias, temos que ganhar ruas que já existem. O viário não foi feito para veículos estacionarem”.

O secretário antecipa que foi aberta uma licitação para edificação de 64 garagens com 400 vagas cada. “É o que chamamos de ‘verticalização da Zona Azul’. Serão construídas em pontos estratégicos para estimular os motoristas a fazerem integração com o metrô e com os ônibus”, explica Moraes. O tempo estimado para que todo o processo fique pronto é de 18 meses.


Trecho sul do Rodoanel: promessa de desafogar o trânsito na Avenida dos Bandeirantes a partir de março próximo
A principal esperança de melhora para a população paulistana, no entanto, está no fim das obras da Marginal Tietê e do trecho sul do Rodoanel. “As obras estarão concluídas no fim do próximo mês de março. Além disso, estamos terminando um estudo que começou em março de 2009 e irá nortear nossas próximas ações. Analisaremos neste relatório, por exemplo, quais caminhões vindos de outras cidades não precisarão passar pela capital”, revela o secretário.

Moraes também mencionou a licitação para a primeira etapa do Monotrilho da Zona Sul, que terá 11,3 km de extensão e vai transportar 30 mil passageiros por hora. “Tudo estará pronto em 2012”, garante.

De acordo com a Secretaria, a grande inovação em termos de tecnologia será o PRIAV (Programa de Identificação Automática de Veículos), que vai permitir o monitoramento de toda a frota da cidade em tempo real, por meio de chips instalados em todos os veículos.


Novas estações do metrô devem ser usadas em conjunto com as garagens verticais para tirar carros das ruas
Além de oferecer a possibilidade de acompanhamento online do trânsito em toda a cidade, o PRIAV vai tornar a fiscalização mais inteligente facilitar a localização de carros roubados e de veículos clandestinos. “Vamos licitar neste ano e pretendemos implantá-lo junto com o IPVA (Imposto sobre Veículos Automotores) de 2010. O programa vai ajudar no trânsito e diminuir assustadoramente os índices de furtos e roubos”, afirma o secretário.

Moraes descarta a implantação de pedágio urbano e diz que o contingente de “marronzinhos” aumentará neste ano – hoje são três mil profissionais da CET nas ruas. O orçamento total da Secretaria Municipal de Transportes de São Paulo para programas em 2010 é de R$ 1,8 bilhão.

Na opinião de Cyro Vidal o Rodoanel é uma necessidade inevitável e o PRIAV não dará certo. “Não vejo solução com pedágio urbano e o PRIAV é falácia. Entre inúmeras outras ações, o Rodoanel é a saída”, pontua.

Carro na garagem

O trânsito faz parte da vida dos cidadãos paulistanos e mescla sentimentos como resignação e indignação. Helio Andrade, 23 anos, estava cansado de gastar mais de duas horas diárias nos congestionamentos. Decidiu comprar uma moto e deixar o seu automóvel na garagem. “Moro a 15 km do trabalho e demoro cerca de 50 minutos para ir e uma hora voltar todo dia”.

O analista de TI reside na Vila Andrade, divisa com o bairro do Morumbi, e trabalha próximo a Osasco. Ele tem um Chevrolet Corsa hatch e acaba de comprar uma Yamaha YS 250 Fazer. “Mesmo pagando IPVA, seguro obrigatório e seguro particular não utilizarei o carro nos dias de semana, somente aos sábados e domingos. Continuarei com o automóvel pela segurança, conforto e necessidade de uso em possíveis emergências”, diz Andrade.

Helio classifica as motos como veículos perigosos, mas acredita que utilização do meio de transporte durante a semana irá melhorar sua qualidade de vida. “Vou economizar tempo, dinheiro e não ficarei tão estressado como nos engarrafamentos”, finaliza.


O analista de TI, Helio Andrade: ideia de ir de moto e deixar o carro para uso eventual
Consta no site da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo que metade da arrecadação do IPVA vai para a capital e os outros 50% para o Estado. Para este ano está prevista a arrecadação de quase R$ 9 bilhões com o imposto. Já Vidal conta que a previsão de arrecadação em multas de trânsito para a Prefeitura de São Paulo é de R$ 580 milhões em 2010.

Fica então a esperança de que a Prefeitura e o Estado de São Paulo invistam os recursos de forma sábia e consigam sanar a hipnose que é o trânsito paulistano.