{"id":135230,"date":"2010-01-04T08:28:37","date_gmt":"2010-01-04T13:28:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.skyscrapercity.com\/showthread.php?t=1037791"},"modified":"2010-01-04T08:28:37","modified_gmt":"2010-01-04T13:28:37","slug":"brasilia-a-maior-contribuicao-brasileira-a-arte-do-seculo-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mereja.media\/index\/135230","title":{"rendered":"Bras\u00edlia: a maior contribui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 arte do s\u00e9culo 20"},"content":{"rendered":"<div><b>Imprud\u00eancia que decolou<\/b><br \/>\n<i>Discutida, atacada, Bras\u00edlia chega aos 50 anos como a maior contribui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 arte do s\u00e9culo 20<\/i><\/p>\n<p>Andr\u00e9 Aranha Corr\u00eaa do Lago &#8211; O Estado de S.Paulo     <\/p>\n<p>N\u00e3o se pode negar: Bras\u00edlia \u00e9 a maior contribui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 arte do s\u00e9culo 20. Apesar de um s\u00e9culo de consider\u00e1vel produ\u00e7\u00e3o cultural &#8211; com grandes momentos na nossa arte contempor\u00e2nea, o Cinema Novo e, sobretudo, a Bossa Nova &#8211; <b>acredito que em nenhuma outra express\u00e3o art\u00edstica o Brasil ter\u00e1 atingido internacionalmente o patamar de respeito, aceita\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia que conseguiu nossa arquitetura, principalmente gra\u00e7as a Bras\u00edlia.<\/b><\/p>\n<p>Nossa capital j\u00e1 foi amplamente discutida e continua a provocar, com 50 anos, os mais variados debates e opini\u00f5es; por isso procurarei concentrar-me no que me parece mais relevante: o fato de Bras\u00edlia ser a realiza\u00e7\u00e3o mais completa de uma utopia que ocupou algumas das mentes mais favorecidas do s\u00e9culo passado e, tamb\u00e9m, o de ser o s\u00edmbolo mais inequ\u00edvoco de que somos capazes de inserir-nos no main stream da arte ocidental. <\/p>\n<p>O reconhecimento do Brasil como ator na arquitetura do s\u00e9culo 20 veio pela constru\u00e7\u00e3o (entre 1937 e 1942), no Rio de Janeiro, do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade (hoje Pal\u00e1cio Gustavo Capanema). Logo depois, veio a repercuss\u00e3o internacional do conjunto da Igreja, do Iate Clube, da Casa de Baile e do Cassino da Pampulha (1943), que definiu Oscar Niemeyer como o grande nome da gera\u00e7\u00e3o. Essas obras revelaram ser poss\u00edvel, em um pa\u00eds de m\u00ednima influ\u00eancia cultural em termos mundiais, a exist\u00eancia de um grupo de jovens arquitetos capazes de interpretar com talento as teorias e os princ\u00edpios mais avan\u00e7ados do momento e at\u00e9 de dar novos rumos \u00e0 arquitetura moderna. <\/p>\n<p>No final dos anos 40 e in\u00edcio dos 50, a arquitetura moderna j\u00e1 tinha conquistado muitos novos adeptos em todo o mundo, tanto entre os profissionais como na academia. Isso foi poss\u00edvel, em parte, por ter sido um movimento rejeitado por Hitler e Stalin, mas tamb\u00e9m por diversos outros motivos, como o aperfei\u00e7oamento e a diminui\u00e7\u00e3o dos custos das novas t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o das novas ideias com a participa\u00e7\u00e3o de arquitetos de todo o mundo nas reuni\u00f5es peri\u00f3dicas do Ciam (Congr\u00e8s International d&quot;Architecture Moderne). <\/p>\n<p>O Ciam havia publicado em 1933 a Carta de Atenas, um manifesto que preconizava a ado\u00e7\u00e3o de um novo urbanismo com clara divis\u00e3o entre os espa\u00e7os de moradia, trabalho e entretenimento. A influ\u00eancia do Ciam permitiu que a reconstru\u00e7\u00e3o de novos bairros e cidades na Europa do segundo p\u00f3s-guerra respeitasse, de maneira geral, os princ\u00edpios da Carta de Atenas. S\u00f3 foi poss\u00edvel, contudo, a execu\u00e7\u00e3o de vers\u00f5es muito modestas dos projetos urban\u00edsticos revolucion\u00e1rios desenvolvidos naquele continente em d\u00e9cadas anteriores.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre a vis\u00e3o norte-americana e europeia eram ainda mais marcantes na \u00e1rea de urbanismo: a falta de espa\u00e7o f\u00edsico para a expans\u00e3o das cidades &#8211; um dado primordial na Europa &#8211; nunca preocupou os urbanistas norte-americanos, que favoreceram as propostas que inclu\u00edam solucionar o crescimento das cidades com a descentraliza\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de n\u00facleos autossuficientes. <\/p>\n<p>Com o final da Segunda Guerra, os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e as novas na\u00e7\u00f5es que se formavam na \u00c1sia acabaram tornando-se o melhor terreno de prova para uma arquitetura que muitos viam como s\u00edmbolo de confian\u00e7a no futuro. Le Corbusier consegue, na \u00cdndia, transformar em realidade parte de suas teorias urban\u00edsticas com a cria\u00e7\u00e3o de Chandigarh (1951-1956), a nova capital da Prov\u00edncia de Punjab.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que se erguia Chandigarh, o des\u00e2nimo dos arquitetos com a dificuldade de realiza\u00e7\u00e3o de grandes projetos urbanos, principalmente na Europa, o continente que havia visto nascer a arquitetura moderna &#8211; provoca o questionamento da Carta de Atenas at\u00e9 mesmo no seio do Ciam, e leva uma nova gera\u00e7\u00e3o a desenvolver planos menos radicais e megaloman\u00edacos. O planejamento ut\u00f3pico &quot;tabula rasa&quot; foi substitu\u00eddo pela busca de um relacionamento mais complexo e favor\u00e1vel entre o casco urbano antigo e as novas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando o governo de Juscelino Kubitschek lan\u00e7a o concurso nacional para o Plano Piloto de Bras\u00edlia, em 1956, a vanguarda da arquitetura internacional j\u00e1 n\u00e3o sonhava com a realiza\u00e7\u00e3o da cidade revolucion\u00e1ria. Mas n\u00e3o porque a ideia havia falhado e sim porque sua realiza\u00e7\u00e3o, pelo menos na Europa e nos EUA, se havia revelado imposs\u00edvel. Chandigarh, o que havia de mais pr\u00f3ximo do sonho de uma gera\u00e7\u00e3o de arquitetos at\u00e9 aquele momento, era criticada em todas as frentes: para alguns, era a imposi\u00e7\u00e3o de conceitos ocidentais discut\u00edveis a uma sociedade n\u00e3o ocidental; para outros, eram conceitos extraordin\u00e1rios executados por uma sociedade discut\u00edvel. <b>No Brasil, no entanto, est\u00e1vamos no auge da confian\u00e7a no futuro, e a nova capital tinha de refletir uma sociedade disposta a realizar utopias.<br \/>\n<\/b><br \/>\nA vit\u00f3ria de L\u00facio Costa no concurso nacional para o projeto urban\u00edstico de Bras\u00edlia esteve longe de ser unanimidade. <b>Mas a grande for\u00e7a do Plano Piloto era n\u00e3o ser apenas mais uma cidade, e sim uma capital.<\/b> L\u00facio Costa, em seu texto explicativo, afirmava que a ideia lhe parecia t\u00e3o boa que &quot;os dados, embora aparentemente sum\u00e1rios, seriam suficientes&quot;; com isso, se o projeto n\u00e3o agradasse, ele n\u00e3o teria perdido seu tempo &quot;nem o dos outros&quot;.<\/p>\n<p>A aceita\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia pelo p\u00fablico n\u00e3o especializado foi imensa, e n\u00e3o apenas no Brasil. N\u00e3o \u00e9 exagero, basta ver as revistas e os jornais da \u00e9poca na Fran\u00e7a, na It\u00e1lia, nos EUA, etc. A divulga\u00e7\u00e3o de magn\u00edficas fotos &#8211; sobretudo as de Marcel Gautherot &#8211; de seu urbanismo radical e de seus principais monumentos, projetados por Oscar Niemeyer, cativou uma gera\u00e7\u00e3o e provou que era poss\u00edvel fazer arquitetura governamental, monumental e moderna.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, segundo o cr\u00edtico Paul Goldberger, simboliza, &quot;com mais for\u00e7a do que qualquer coisa constru\u00edda nos Estados Unidos, a f\u00e9 inquebrant\u00e1vel dos anos 50 de que o design moderno podia criar um mundo melhor&quot;.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica especializada, no entanto, procurou derrubar rapidamente o \u00edcone popular. A chegada do regime militar, em 1964, facilitou a opera\u00e7\u00e3o, e a cidade criada em um dos mais din\u00e2micos per\u00edodos democr\u00e1ticos do Brasil acabou sendo associada mundo afora ao totalitarismo. A crise econ\u00f4mica brasileira, apesar da redemocratiza\u00e7\u00e3o, dissociou Bras\u00edlia do otimismo e do futuro e a cidade passou a ser estudada por antrop\u00f3logos e soci\u00f3logos mais do que por cr\u00edticos de arquitetura. A constru\u00e7\u00e3o de um n\u00famero consider\u00e1vel de edif\u00edcios monstruosos n\u00e3o ajudou.<\/p>\n<p>Peter Blake, em seu livro Form Follows Fiasco, de 1977, refere-se a Bras\u00edlia como a &quot;solu\u00e7\u00e3o final&quot;. Edmund Bacon, no entanto, em Design of Cities, um dos livros sobre urbanismo mais influentes at\u00e9 hoje, afirma que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel apreciar a cidade depois de visit\u00e1-la: &quot;<b>Muito maltratada pelos cr\u00edticos, cuja maioria n\u00e3o conhece pessoalmente a cidade, Bras\u00edlia representa para a arquitetura contempor\u00e2nea o mais significativo exemplo de cidade planejada como um todo&quot;.<\/b><\/p>\n<p>Segundo a revista The Economist, &quot;Bras\u00edlia \u00e9 ao mesmo tempo a gl\u00f3ria e a tumba do ideal modernista&quot;. \u00c9 a gl\u00f3ria porque dentro de cem anos a imagem de cidade planejada do s\u00e9culo 20 ser\u00e1 Bras\u00edlia. E \u00e9 a tumba porque, como diz Goldberger, Bras\u00edlia &quot;prova melhor do que qualquer outro lugar (&#8230;) que a arquitetura moderna n\u00e3o sabe fazer cidades, apesar de fazer edif\u00edcios maravilhosos&quot;.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u00e9 o primeiro conjunto arquitet\u00f4nico moderno a ser colocado na lista do Patrim\u00f4nio da Humanidade da Unesco. <b>Isso deve nos recordar que nossa capital \u00e9 uma cidade de concep\u00e7\u00e3o moderna, mas n\u00e3o contempor\u00e2nea. \u00c9 um conjunto arquitet\u00f4nico do passado &#8211; apesar de recente &#8211; e deve ser tratado como tal.<\/b> Bras\u00edlia, se forem respeitados os princ\u00edpios que orientaram sua cria\u00e7\u00e3o, dever\u00e1 ser, cada vez mais, para o Brasil e para o mundo, o s\u00edmbolo de uma \u00e9poca. Como disse M\u00e1rio Pedrosa, &quot;se Bras\u00edlia foi uma imprud\u00eancia, viva a imprud\u00eancia&quot;.<\/p>\n<p>Todas as grandes cidades t\u00eam defeitos e n\u00e3o se deve neg\u00e1-los, mas o fato de, por exemplo, os setores comerciais norte e sul n\u00e3o conseguirem agradar a ningu\u00e9m, n\u00e3o justifica condenar o plano piloto como um todo. H\u00e1 muitos pol\u00edticos e arquitetos &#8211; atra\u00eddos por espa\u00e7os &quot;vazios&quot; ou &quot;subutilizados&quot; &#8211; que se sentem tentados a &quot;corrigir&quot; os erros da cidade, mas o maior erro seria desviar-se dos planos originais. <b>Se n\u00e3o preservarmos Bras\u00edlia da maneira como foi concebida por L\u00facio Costa teremos talvez uma cidade mais &quot;normal&quot;, mas certamente teremos uma cidade feia e sem personalidade, como a maioria das cidades brasileiras. <\/b><\/p>\n<p>Toda altera\u00e7\u00e3o em setores previstos no plano de L\u00facio Costa deve ser feita sem afetar os princ\u00edpios basilares do urbanismo da cidade. Por exemplo, a altera\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o nos setores comerciais sul e norte ou nos setores hoteleiros pode ser feita segundo o princ\u00edpio de &quot;acupuntura urbana&quot;, defendido por especialistas como Jaime Lerner: ou seja, corrigem-se problemas pontuais, sem questionar a l\u00f3gica geral da cidade. Temos que evitar mais erros, pois muitos j\u00e1 foram cometidos. <\/p>\n<p><b>Devemos, a todo custo, preservar de maneira muito atenta o esp\u00edrito modernista de Bras\u00edlia, pois \u00e9 a maior contribui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 arte do s\u00e9culo 20. <\/b><\/p>\n<p><i>Andr\u00e9 Aranha Corr\u00eaa do Lago, Diplomata, cr\u00edtico de arquitetura e autor de diversas publica\u00e7\u00f5es sobre o tema. Uma vers\u00e3o ampliada deste texto, baseado em artigo para o site no.com, far\u00e1 parte do livro Bras\u00edlia: Cinquenta Anos, a ser publicado pela Imprensa Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo em 2010<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/suplementos,imprudencia-que-decolou,487407,0.htm\" >http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/s&#8230;u,487407,0.htm<\/a><br \/>\n<\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imprud\u00eancia que decolou Discutida, atacada, Bras\u00edlia chega aos 50 anos como a maior contribui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 arte do s\u00e9culo 20 Andr\u00e9 Aranha Corr\u00eaa do Lago &#8211; O Estado de S.Paulo N\u00e3o se pode negar: Bras\u00edlia \u00e9 a maior contribui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 arte do s\u00e9culo 20. 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